Expansão Urbana e Histórica da Cidade de São Paulo

Este artigo propõe contar a trajetória urbana da cidade de São Paulo, desde sua fundação passando por momentos importantes de sua expansão, como por exemplo a inauguração do Viaduto do Chá, que deu novos horizontes para cidade. Para entender a cidade de São Paulo, é necessário que voltemos no tempo. A cultura enraizada na cidade e algumas abordagens urbanas junto ao crescimento desenfreado da população fizeram com que algumas problemáticas da cidade aparecessem de forma muito presente no nosso dia-dia. Com isso em mente é de suma importância a contextualização da cidade para que entendemos de forma clara o por que chegamos onde estamos com relação ao urbanismo, arquitetura e qualidade da cidade de São Paulo.

MARCO ZERO, ONDE TUDO COMEÇA


A cidade de São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1554 pelos jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, o local da missa foi chamado na época “Colégio de São Paulo de Piratininga” dando origem ao povoado que se formou ao seu redor, a Vila de São Paulo de Piratininga. Hoje o local dessa fundação é conhecido como Pateo do Collegio local que se encontra aberto para visitação, o edifício foi tombado pelo CONPRESP – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo pelo seu valor histórico e cultural.


Foto do Acervo Histórico da Cidade de São Paulo


Segundo documentário “Entre Rios”, Piratininga é o nome antigo do rio Tamanduateí, na língua tupi quer dizer “Rio do peixe seco”, na época das chuvas o rio transbordava e quando água abaixava os peixes ficavam presos em suas margens, atraindo as formigas para se deliciarem com o banquete. Como tudo que vai, volta, essas formigas por sua vez atraiam os Tamanduás, o rio do peixe seco se tornou o rio dos Tamanduás, o Tamanduateí.


Em outro determinado tempo do mesmo documentário podemos ver que lugar escolhido foi estratégico, em uma elevação entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, rios que por mais de 300 anos foram os responsáveis por abastecer e exportar mercadorias, sem esses rios a expansão urbana em quesitos financeiros e mercantes da cidade teria sido impossível.


Hoje a maioria das pessoas nem notam a existência desses dois protagonistas pelo simples fato de andarmos e circularmos por cima deles, a situação atual desses rios é de canalização, ou seja, estão por baixo da selva de concreto que a cidade acabou virando com o decorrer do tempo.


Além de fornecer alimentos, o rio Tamanduateí, era uma importante via de conexão do litoral com o interior paulista, as trilhas indígenas eram associadas aos seus caminhos e mais tarde, os portugueses se serviram do leito navegável do rio para conseguir transportar tanto pessoas como mercadorias.


Quando chegamos em meados do Século XIX, a expansão cafeeira no Brasil estava a todo vapor e São Paulo começa a ter importante papel econômico no país, sendo um principal destaque.


Como prova maior desse avanço, em 1867 foi fundada a São Paulo Railway, a única ferrovia que fazia ligação com o mar, ela utilizava os contornos do leito do Rio Tamnduateí e nossa expansão urbana estava cada vez melhor e a todo vapor, diferente do destino dos rios que durante anos ajudaram nessa mesma expansão da cidade.



Manchete do Jornal sobre a São Paulo Railway - 1892 - Acervo Histórico Cidade de São Paulo



De acordo com Zagni (2004),


“Para os índios estabelecidos nessa região, antes da chegada do colonizador europeu, o fenômeno das cheias regulares do rio, conformando regiões extensas de várzeas ao longo de seu curso, fazia com que um número grande de peixes encalhasse nas regiões que haviam sido inundadas quando as águas voltavam ao seu nível normal, morrendo e secando ao sol. A importância desse fenômeno natural para a sobrevivência das tribos, ao qual se seguia a atividade de coleta desses mesmos peixes, fez com que a designação dada pelos índios ao território fosse ‘Piratininga’, que do tupi traduz- se como ‘peixe seco’ e demonstra o quanto a sobrevivência dessas tribos estava ligada à ocorrência de suas várzeas. A própria designação Tamanduateí faz menção ao mesmo fenômeno, pois um grande número de tamanduás podia ser visto ao longo das margens abandonadas temporariamente pelas águas que retomavam seu nível normal, alimentando-se das formigas que se aglomeravam em torno dos peixes mortos. (p. 1-2)”


DOS RIOS PARA O LADO DE LÁ


A primeira medida para “vencer” os rios e continuar o avanço da cidade de São Paulo foi a ideia da construção do Viaduto do Chá em 1877 idealizado pelo arquiteto francês Jules Martin, mas inaugurado apenas 1892. Sua construção aconteceu depois de uma intensa disputa judicial entre a Baronesa de Tatuí e o poder público, pois para construção do viaduto o casarão da Baronesa deveria ser desapropriado e destruído, uma vez que alguns alicerces do viaduto iriam tomar o local da casa. Pela própria história já se nota que a decisão favoreceu o viaduto, em 1889 a casa foi desapropriada e destruída para construção que foi inaugurada em 1892.


Fotos da Inauguração do Viaduto do Chá 1892 - Arquivo Estadão


Antes da construção do famoso Viaduto do Chá, que tem esse nome por conta das plantações de chá que havia no Vale do Anhangabaú naquele tempo, o vale era dividido pelo rio de mesmo nome, parte da estrutura do viaduto ficava na Rua Direita (se inicia na Praça da Sé e acaba na Praça Patriarca) essa rua junto em conjunto com a rua 15 de Novembro e Rua São Bento, formam o Triângulo Histórico da Cidade de São Paulo.


Triângulo Histórico de São Paulo - Mapa de 1899 - Garoa Histórica

A população da cidade de São Paulo entre 1765 e 1862, em um período de 107 anos, cresceu 50.3%; Enquanto, Entre os anos de 1872 a 1890, período de 18 anos, seu crescimento foi da ordem de 106,9% e, de 1890 a 1900, a população cresceu 269,3%, em apenas uma década (MOROZ-CACCIA GOUVEIA, 2010).


Esse crescimento absurdo aconteceu por conta da elite cafeeira que estava residindo na cidade de São Paulo depois da inauguração da São Paulo Railway, mas acima de tudo por conta da massiva chegada de imigrantes na cidade.


Todo dinheiro que os barões e baronesas da cafeicultura movimentavam fez com que a cidade fosse mudando sua fisionomia e consequentemente no dia dia das pessoas. Nos bairros novos começam a surgir os palacetes e mansões, projetados por arquitetos como Ramos de Azevedo e Victor Dubugrás. Em 1865 uma lei autoriza o calçamento geral da cidade e é também nesse ano que a iluminação pública por meio de gás e a primeira linha de bondes a tração animal aconteceram.


Enquanto o centro da cidade estava sofrendo com reformas e regularizações urbanísticas, a cidade se expandia rapidamente sentido oeste ocupando outras regiões de colinas e montanhas, foi nesse momento que grandes bairros que conhecemos hoje em dia foram criados, como por exemplo o bairro de Campos Elísios de 1879, Higienópolis de 1890 e o grande símbolo da cidade e da cultura cafeeira no país, a famosa Avenida Paulista com inauguração em 1891. Naquela época por serem bairros e ruas criadas pela elite do café, eram muito chiques, chiques de tal forma que a Avenida Paulista em sua primeira versão na inauguração era feita de pedregulhos brancos em toda sua extensão.


Avenida Paulista - 1990 - Companhia de Saneamento e Energia São Paulo



Campos Elíseos - 1911 - Companhia de Saneamento e Energia São Paulo



Avenida Higienópolis - 1911 - Companhia de Saneamento e Energia São Paulo


Importante dizer que esses locais citados acima já existiam antes da inauguração do Viaduto do Chá, mas ficou absurdamente mais acessível depois de sua construção, cortando o Vale do Anhangabaú por completo, facilitando do acesso de todos e consequentemente seu crescimento.


A FRAGMENTAÇÃO


O novo pólo da cidade de São Paulo estava indo de vento em popa e passou a oferecer as mesmas coisas que o centro oferecia antes, foi nesse momento que houve uma ruptura arquitetônica, urbana e invisível, foi “criado” o termo que conhecemos hoje de “Centro Velho”, embora na época ninguém soubesse que seria dessa forma.


No início do século XX a população mais rica da cidade já estava se concentrando nesses novos polos e cada vez mais a cidade ia se expandindo. O centro da cidade acabou sendo moradia para a população mais pobre que apenas frequentava os novos bairros como inspiração de uma outra realidade.


O auge do período do café é representado pela construção do anexo da Estação da Luz no fim do século XIX. Neste período, o centro financeiro da cidade desloca-se de seu centro histórico, região chamada de "Triângulo Histórico", para áreas mais a Oeste. O vale do rio Anhangabaú é ajardinado e a região do outro lado do rio passa a ser conhecida como Centro Novo.



Vale do Anhangabaú - 1911 - Luís Tavares - São Paulo Histórica - Pinterest


Em 1911 a expansão arquitetônica e urbanística da cidade atingiu seu auge a inauguração do Theatro Municipal de São Paulo projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo. Este foi o projeto necessário para estabelecer a grandiosidade da cidade, um lugar onde a elite de São Paulo pudesse assistir óperas e concertos, como ocorria em países como a Itália e a Inglaterra. Foi no ano seguinte, em 1912 que a praça patriarca foi inaugurada também, uma das praças mais antigas da cidade.


“URBANIZAÇÃO” A TODO VAPOR


A Revolução de 1930 foi o movimento armado, liderado pelos estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, que culminou com o golpe de Estado, o Golpe de 1930, que depôs o presidente da república Washington Luís em 24 de outubro de 1930. O Golpe marca o fim da República Velha, com a destituição do presidente eleito Júlio Prestes, que foi impedido de tomar posse.


Após a Revolução de 1930, a indústria nacional consolidou-se como produtora de consumo e os produtos nacionais passaram a dominar as prateleiras das lojas da Rua Vinte e Cinco de Março, rua histórica que também teve sua participação na história e no crescimento financeiro da cidade.


A rua ganhou o nome no ano de 1865, em homenagem ao dia 25 de março de 1824 quando foi assinado a primeira constituição do Brasil, a Constituição Brasileira de 1824. A origem da Rua Vinte e Cinco de Março remonta ao século 18, quando era conhecida como “Beco das Sete Voltas”, em referência às várias curvas sinuosas do rio Tamanduateí. A Rua Vinte e Cinco de Março já foi conhecida pelo nome de “Rua Várzea do Glicério”, além de “Rua das Sete Voltas”, ou também como Rua de Baixo, ou de Baixa de São Bento, em referência à igreja na parte alta da cidade e pela localização abaixo do Mosteiro de São Bento, dividindo a cidade em duas partes; Alta e Baixa.


“A relação da rua 25 de Março com a história da cidade de São Paulo é inteiramente conectada. O rio Tamanduateí era uma das principais entradas de mercadoria na região, as cargas importadas saíam do Porto de Santos e chegavam ao Porto Geral, esse último se encontrava próximo do Pátio do Colégio, os dois vizinhos da rua 25 de Março. Antes de ser nomeada de fato 25 de Março em 1865, o trecho às margens do rio Tamanduateí foi chamado de rua das Sete Voltas devido as curvas sinuosas do rio”- (site oficial Ladera Porto Geral)

Registros da cidade apontam que a primeira loja aberta no local foi a Nami Jafet & Irmãos, em 1893, que nesta época contava apenas com seis lojas: cinco armarinhos e uma mercearia. Oito anos depois, em 1901, já eram mais de 500 pequenas lojas. Um dos fatores que contribuiu para a prosperidade da região foram os imigrantes libaneses que se estabelecerem na Rua Vinte e Cinco de Março e forneciam mercadorias para seus compatriotas recém-chegados a São Paulo revenderem em bairros mais distantes da capital paulista.


No mesmo prisma de mercado, o Mercadão foi projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo e inaugurado em 25 de janeiro de 1933. O estabelecimento recebia as inúmeras mercadorias que a Ladeira Porto Geral e a Rua 25 de Março traziam para cidade. Durante muitos anos e até os dias de hoje é importante polo de compra e vendas de mercadorias como frutas, verduras, cereais, carnes, temperos e outros produtos alimentícios. Porém vale lembrar que sua primeira função foi a de armazém de pólvora e munições.


Além de sua importância econômica e social nos dias de hoje, o Mercadão esconde um dos rios protagonistas da fundação da cidade, o Tamanduateí, que foi reduzido a um córrego que passa atrás do mercado central.


Como conclusão prática baseada na trajetória, com o passar dos anos a cidade de São Paulo deixou de ser uma Vila e se transformou na sétima maior cidade do mundo, passando dos 13 milhões de habitantes na sua totalidade. É a principal fonte de PIB do Brasil, atingindo uma média anual de 33% do PIB brasileiro.


É uma cidade que cresceu seguindo a elite, deixando para trás pobreza e esquecimento. Seus pólos seguiam o mesmo caminho do dinheiro e o que era inovador e grandioso foi perdendo sua importância com as inúmeras migrações elitistas.


Grande parte das intervenções urbanas da cidade foram feitas tarde demais, apenas corrigindo o que deveria ter sido feito. O esquecimento e falta de manutenção dos bairros protagonistas da história deixaram para trás a glamurosa realidade.


“Apesar de ainda ser um poderoso polo econômico, financeiro e cultural, São Paulo é marcada pela pobreza, pela desigualdade e pela incerteza quanto a seu futuro” - (ROLNIK, Raquel, 2017).

BIBLIOGRAFIA


Acervo Histórico da Cidade de São Paulo

Arquivo Estadão

Zagni (2004),p. 1-2

Documentário Entre Rios, Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu e Joana Scarpelini no curso em Bacharelado em Audiovisual no SENAC-SP.

Companhia de Saneamento e Energia São Paulo

( TOLEDO, Benedito Lima de (2005). Prestes Maia e as origens do Urbanismo moderno em São Paulo. São Paulo: Ed. ABCP)

(Prestes Maia, 1930: p.7)

Esquema teórico do Plano de Avenidas de São Paulo. Foto: Fernando Oda

Vale do Anhangabaú - 1911 - Luís Tavares - São Paulo Histórica – Pinterest Prefeitura da Cidade de São Paulo

Levantamento próprio

(ROLNIK, Raquel, 2017)

(http://ladeiraportogeral.com/porto-geral-historia/)