Expansão Urbana e Histórica da Cidade de São Paulo

Atualizado: 2 de ago.

Este artigo propõe contar a trajetória urbana da cidade de São Paulo desde sua fundação,

passando por momentos importantes de sua expansão, como, por exemplo, a

inauguração do do Viaduto do Chá, que deu novos horizontes à cidade. Para entender a

cidade de São Paulo, é necessário que voltemos no tempo. A cultura enraizada na

cidade e algumas abordagens urbanas junto ao crescimento desenfreado da população

fizeram com que algumas problemáticas da cidade aparecessem de forma muito

presente no nosso dia a dia. Com isso em mente, é de suma importância a

contextualização da cidade para que entendamos de forma clara o porquê chegamos

onde estamos com relação ao urbanismo, arquitetura e qualidade da cidade de São

Paulo. MARCO ZERO, ONDE TUDO COMEÇA


A cidade de São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1554 pelos jesuítas Manuel da

Nóbrega e José de Anchieta. O local da missa foi chamado, na época, de “Colégio de

São Paulo de Piratininga”, dando origem ao povoado que se formou ao seu redor, a

Vila de São Paulo de Piratininga. Hoje, o local dessa fundação é conhecido como

“Pateo do Collegio”, local que se encontra aberto para visitação. O edifício foi

tombado pelo CONPRESP – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio

Histórico, Cultural eAmbiental da Cidade de São Paulo pelo seu valor histórico e

cultural.

Foto do Acervo Histórico da Cidade de São Paulo


Segundo o documentário “Entre rios”, Piratininga é o nome antigo do Rio

Tamanduateí, que na língua tupi quer dizer “rio do peixe seco”. Na época das chuvas,

o rio transbordava, e, enquanto a água abaixava, os peixes ficavam presos em suas

margens, atraindo as formigaspara se deliciarem com o banquete. Como tudo que vai

volta, essas formigas, por sua vez, atraíam os tamanduás, então, o rio do peixe seco se

tornou o “rio dos tamanduás”, o Rio Tamanduateí.


Em outro determinado tempo do mesmo documentário, podemos ver que o lugar

escolhido foi estratégico: uma elevação entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, rios

que por mais de trezentos anos foram os responsáveis por abastecer e exportar

mercadorias. Sem esses rios, a expansão urbana, em quesitos financeiros e mercantes da

cidade, teria sido impossível.


Hoje, a maioria das pessoas nem nota a existência desses dois protagonistas pelo

simples fato de andarmos e circularmos por cima deles. A situação atual desses rios é

de canalização, ou seja, estão por baixo da selva de concreto que a cidade acabou

virando com o decorrer do tempo.


Além de fornecer alimentos, o Rio Tamanduateí era uma importante via de conexão do

litoral com o interior paulista. As trilhas indígenas eram associadas aos seus caminhos,

e, mais tarde, os portugueses se serviram do leito navegável do rio para conseguir

transportar tanto pessoas quanto mercadorias.


Quando chegamos em meados do século XIX, a expansão cafeeira no Brasil estava a

todo vapor, e São Paulo começou a ter importante papel econômico no país, sendo o

principal destaque. Como prova maior desse avanço, em 1867 foi fundada a São

Paulo Railway, a única ferrovia que fazia ligação com o mar. Ela utilizava os

contornos do leito do Rio Tamanduateí, e nossa expansão urbana estava cada vez

melhor e a todo vapor, diferentemente do destino dos rios que, durante anos,

ajudaram nessa mesma expansão da cidade.



Manchete do Jornal sobre a São Paulo Railway - 1892 - Acervo Histórico Cidade de São Paulo



De acordo com Zagni (2004),


“Para os índios estabelecidos nessa região, antes da chegada do colonizador europeu, o fenômeno das cheias regulares do rio, conformando regiões extensas de várzeas ao longo de seu curso, fazia com que um número grande de peixes encalhasse nas regiões que haviam sido inundadas quando as águas voltavam ao seu nível normal, morrendo e secando ao sol. A importância desse fenômeno natural para a sobrevivência das tribos, ao qual se seguia a atividade de coleta desses mesmos peixes, fez com que a designação dada pelos índios ao território fosse ‘Piratininga’, que do tupi traduz- se como ‘peixe seco’ e demonstra o quanto a sobrevivência dessas tribos estava ligada à ocorrência de suas várzeas. A própria designação Tamanduateí faz menção ao mesmo fenômeno, pois um grande número de tamanduás podia ser visto ao longo das margens abandonadas temporariamente pelas águas que retomavam seu nível normal, alimentando-se das formigas que se aglomeravam em torno dos peixes mortos. (p. 1-2)”


DOS RIOS PARA O LADO DE LÁ


A primeira medida para “vencer” os rios e continuar o avanço da cidade de São Paulo

foi a ideia da construção do Viaduto do Chá em 1877, idealizado pelo arquiteto francês

Jules Martin, mas inaugurado apenas 1892. Sua construção aconteceu depois de uma

intensa disputa judicial entre a baronesa de Tatuí e o poder público, pois, para a

construção do viaduto, o casarão da baronesa deveria ser desapropriado e destruído,

uma vez que alguns alicerces do viaduto iriam tomar o local da casa. Pela própria

história, já notamos que a decisão favoreceu o viaduto. Em 1889, a casa foi

desapropriada e destruída para a construção, que foi inaugurada em 1892.


Fotos da Inauguração do Viaduto do Chá 1892 - Arquivo Estadão


Antes da construção do famoso Viaduto do Chá, que tem esse nome por conta das

plantações de chá que havia no Vale do Anhangabaú naquele tempo, o vale era dividido

pelo rio de mesmo nome. Parte da estrutura do viaduto ficava na Rua Direita (a qual se

inicia na Praça da Sé e acaba na Praça Patriarca); essa rua, junto com a Rua Quinze de

Novembro e Rua São Bento, forma o Triângulo Histórico da cidade de São Paulo.


Triângulo Histórico de São Paulo - Mapa de 1899 - Garoa Histórica

A população da cidade de São Paulo, entre 1765 e 1862, em um período de cento e

sete anos, cresceu 50.3%. Entre os anos de 1872 a 1890, período de dezoito anos, seu

crescimento foi da ordem de 106,9%, e, de 1890 a 1900, a população cresceu 269,3%

em apenas uma década (MOROZ-CACCIA GOUVEIA, 2010). Esse crescimento

absurdo aconteceu por conta da elite cafeeira que estava residindo na cidade de São

Paulo depois da inauguração da São Paulo Railway, mas, acima de tudo, por conta da

massiva chegada de imigrantes na cidade.


Todo o dinheiro que os barões e baronesas da cafeicultura movimentaram fez com que a

cidade fosse mudando sua fisionomia e, consequentemente, o dia a dia das pessoas. Nos

bairros novos, começaram a surgir os palacetes e mansões projetados por arquitetos

como Ramos de Azevedo e Victor Dubugrás. Em 1865, uma lei autorizou o calçamento

geral da cidade, e foi também nesse ano que a iluminação pública por meio de gás e a

primeira linha de bondes à tração animal aconteceram.


Enquanto o centro da cidade estava sofrendo com reformas e regularizações

urbanísticas, a cidade se expandia rapidamente sentido oeste, ocupando outras regiões

de colinas e montanhas. Foi nesse momento que grandes bairros que conhecemos hoje

foram criados, como o bairro de Campos Elísios (1879), Higienópolis (1890) e o grande

símbolo da cidade e da cultura cafeeira no país, a famosa Avenida Paulista, com

inauguração em 1891. Naquela época, por ser bairros e ruas criados pela elite do café,

eles eram muito chiques, chiques de tal forma que a Avenida Paulista, em sua primeira

versão na inauguração, era feita de pedregulhos brancos em toda sua extensão.


Avenida Paulista - 1990 - Companhia de Saneamento e Energia São Paulo



Campos Elíseos - 1911 - Companhia de Saneamento e Energia São Paulo



Avenida Higienópolis - 1911 - Companhia de Saneamento e Energia São Paulo


É importante dizermos que esses locais citados acima já existiam antes da

inauguração doViaduto do Chá, mas ficaram absurdamente mais acessíveis depois

de sua construção, a qual cortava o Vale do Anhangabaú por completo, facilitando

o acesso de todos e, consequentemente, seu crescimento.


A FRAGMENTAÇÃO


O novo polo da cidade de São Paulo estava indo de vento em popa e passou a oferecer

as mesmas coisas que o centro oferecia antes. Foi nesse momento que houve uma

ruptura arquitetônica, urbana e invisível, e foi “criado” o termo que conhecemos hoje

como “Centro Velho”, embora na época ninguém soubesse que ele seria dessa forma.


No início do século XX, a população mais rica da cidade já estava se concentrando

nesses novos polos, e cada vez mais a cidade ia se expandindo. O centro da cidade

acabou sendo moradia para a população mais pobre que apenas frequentava os novos

bairros como inspiração para outra realidade.


O auge do período do café é representado pela construção do anexo da Estação da Luz

no fim do século XIX. Nesse período, o centro financeiro da cidade deslocou-se de

seu centro histórico, região chamada de Triângulo Histórico, para áreas mais a oeste.

Ovale do Rio Anhangabaú é ajardinado, e a região do outro lado do rio passou a ser

conhecida como Centro Novo.



Vale do Anhangabaú - 1911 - Luís Tavares - São Paulo Histórica - Pinterest


Em 1911, a expansão arquitetônica e urbanística da cidade atingiu seu auge na

inauguração do Theatro Municipal de São Paulo, projetado pelo arquiteto Ramos de

Azevedo. Esse foi o projeto necessário para estabelecer a grandiosidade da cidade,

um lugar onde a elite de São Paulo pudesse assistir a óperas e concertos, como ocorria

em países como Itália e Inglaterra. Foi no ano seguinte, em 1912, que a Praça do

Patriarca foi inaugurada também, uma das praças mais antiga da cidade.


“URBANIZAÇÃO” A TODO VAPOR


A Revolução de 1930 foi um movimento armado, liderado pelos estados de Minas

Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, que culminou com um golpe de Estado, o Golpe

de 1930, que depôs o presidente da república Washington Luís em 24 de outubro de

1930. O golpe marca o fim da República Velha com a destituição do presidente eleito

Júlio Prestes, que foi impedido de tomar posse do cargo.


Após a Revolução de 1930, a indústria nacional consolidou-se como produtora de

consumo, e os produtos nacionais passaram a dominar as prateleiras das lojas da Rua

Vinte e Cinco de Março, rua histórica que também teve sua participação na história e no

crescimento financeiro da cidade.


A rua ganhou o nome no ano de 1865 em homenagem ao dia 25 de março de 1824,

quando foi assinada a primeira constituição do Brasil, a Constituição Brasileira de 1824.

A origem da Rua Vinte e Cinco de Março remonta ao século XVIII, quando era

conhecida como “Beco das Sete Voltas” em referência às várias curvas sinuosas do Rio

Tamanduateí. A Rua Vinte e Cinco de Março já foi conhecida pelo nome “Rua Várzea do Glicério”, além de “Rua das Sete Voltas” e “Rua de Baixo” ou “Baixa de

São Bento”, estes dois últimos em referência à igreja na parte alta da cidade e pela

localização da rua abaixo do Mosteiro de São Bento, dividindo a cidade em duas partes:

alta e baixa.


“A relação da rua 25 de Março com a história da cidade de São Paulo é inteiramente conectada. O rio Tamanduateí era uma das principais entradas de mercadoria na região, as cargas importadas saíam do Porto de Santos e chegavam ao Porto Geral, esse último se encontrava próximo do Pátio do Colégio, os dois vizinhos da rua 25 de Março. Antes de ser nomeada de fato 25 de Março em 1865, o trecho às margens do rio Tamanduateí foi chamado de rua das Sete Voltas devido as curvas sinuosas do rio”- (site oficial Ladeira Porto Geral)

Registros da cidade apontam que a primeira loja aberta no local foi a Nami Jafet &

Irmãos, em 1893. Nessa época, o local contava apenas com seis lojas: cinco armarinhos

e uma mercearia. Oito anos depois, em 1901, já eram mais de quinhentas pequenas

lojas. Um dos fatores que contribuiu para a prosperidade da região foram os imigrantes

libaneses que se estabelecerem na Rua Vinte e Cinco de Março e forneciam mercadorias

para seus compatriotas recém-chegados à São Paulo revenderem em bairros mais

distantes da capital paulista.


No mesmo prisma de mercado, o Mercadão foi projetado pelo arquiteto Ramos de

Azevedo e inaugurado em 25 de janeiro de 1933. O estabelecimento recebia as inúmeras

mercadorias que a Ladeira Porto Geral e a Rua 25 de Março levavam para a cidade.

Durante muitos anos e até os dias de hoje, o Mercadão é um importante polo de

compra e venda de mercadorias, como frutas, verduras, cereais, carnes, temperos e

outros produtos alimentícios. Porém, vale lembrar que sua primeira função foi a de

armazém de pólvora e munições. Além de sua importância econômica e social nos dias

de hoje, o Mercadão esconde um dos rios protagonista da fundação da cidade, o

Tamanduateí, que foi reduzido a um córrego que passa atrás do Mercado Central.


Como conclusão prática baseada na trajetória, com o passar dos anos, a cidade de São

Paulo deixou de ser uma vila e se transformou na sétima maior cidade do mundo,

passando dos treze milhões de habitantes em sua totalidade. É a principal fonte do PIB

do Brasil, atingindo uma média anual de 33% do PIB brasileiro.


É uma cidade que cresceu seguindo a elite, deixando para trás pobreza e esquecimento.

Seus polos seguiam o mesmo caminho do dinheiro, e o que era inovador e grandioso

foi perdendo sua importância com as inúmeras migrações elitistas.


Grande parte das intervenções urbanas da cidade foi feita tarde demais, apenas

corrigindo o que deveria ter sido feito. O esquecimento e a falta de manutenção

dos bairros protagonistas da história deixaram para trás a glamorosa realidade.


“Apesar de ainda ser um poderoso polo econômico, financeiro e cultural, São Paulo é marcada pela pobreza, pela desigualdade e pela incerteza quanto a seu futuro” - (ROLNIK, Raquel, 2017).

BIBLIOGRAFIA


Acervo Histórico da Cidade de São Paulo

Arquivo Estadão

Zagni (2004),p. 1-2

Documentário Entre Rios, Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu e Joana Scarpelini no curso em Bacharelado em Audiovisual no SENAC-SP.

Companhia de Saneamento e Energia São Paulo

( TOLEDO, Benedito Lima de (2005). Prestes Maia e as origens do Urbanismo moderno em São Paulo. São Paulo: Ed. ABCP)

(Prestes Maia, 1930: p.7)

Esquema teórico do Plano de Avenidas de São Paulo. Foto: Fernando Oda

Vale do Anhangabaú - 1911 - Luís Tavares - São Paulo Histórica – Pinterest Prefeitura da Cidade de São Paulo

Levantamento próprio

(ROLNIK, Raquel, 2017)

(http://ladeiraportogeral.com/porto-geral-historia/)